Qual é o tênis perfeito para correr? 

Profissionais da saúde e corredores ficam confusos em meio a tanta publicidade, modelos e especificações do mundo dos calçados. Contudo, existe uma supervalorização do material e as pessoas não se dão conta de que o tênis é apenas um acessório para a prática esportiva. Mais importante do que a superfície de contato entre solo e os pés é a biomecânica e a capacidade do atleta de suportar a demanda do esporte. 

               Não é por acaso - as empresas responsáveis pela produção dos tênis de corrida gastam milhões em publicidade, tentando influenciar a escolha dos corredores. Neste quesito, as marcas de tênis de corrida trazem uma gama enorme de tipos diferentes de tecnologias e características do tênis que visam, segundo as marcas, melhorar a performance e reduzir o número de lesões. No entanto, um ponto importante a ser destacado é que apesar das novas tecnologias, o número de lesões relacionadas à corrida não diminuiu com o passar dos anos (NIGG, 2015). A qualidade de um tênis não é definida pela sua “robustês”, nem pelo seu preço - gerando a reflexão de que tênis caro não é sinônimo de correr melhor e/ou sem dores (CLINGHAN, 2008).

               O drop do tênis é uma das características procuradas pelos corredores na perspectiva de diminuir ou aliviar sintomas e lesões. Este drop corresponde ao "salto" do tênis, ou seja, a diferença entre a altura do tênis no calcanhar e a altura do tênis no antepé. Um grupo de estudos avaliou a relação entre diferentes tamanhos de drop (10, 6 e 0mm) e o risco de lesões em 553 corredores por 6 meses e identificaram que o drop não determina o aumento ou diminuição do risco de lesões nessa população (MALISOUX et al. 2016). De fato, as lesões possuem natureza multifatorial e somente o uso dos instrumentos externos (tênis) não justifica a alteração do risco de lesões.  

               Já um estudo publicado este ano verificou se os tênis esportivos específicos podem corrigir alterações na pisada (SILVA et al. 2020). Este estudo avaliou 111 corredores descalços e calçados, desta forma poderiam observar como o pé se comporta ao utilizar o tênis e verificar se houve melhora dos movimentos considerados alterados (hipersupinação e hiperpronação). Entretanto, os achados do estudo mostraram que tênis específicos para correção de pisada não foram eficazes para corrigir os movimentos alterados. Enquanto isso, podemos observar o mercado de artigos esportivos vendendo tênis para “correção de pisada” de forma individualizada aos praticantes de corrida. A alteração da pisada está relacionada com fatores como força e rigidez de alguns grupos musculares e déficits de mobilidade articular, fatores que devem ser trabalhados para aumentar a capacidade do atleta para a prática da corrida, antes mesmo de se pensar no tênis.

               A qualidade de um tênis é uma junção entre o conforto que ele oferece e a liberdade que ele dará aos pés durante a mecânica das passadas (NIGG, 2015). Por outro lado, a percepção geral de conforto muda ao longo de uma corrida. Fatores como fadiga, aumento do volume do pé decorrente de inchaço funcional, aumento nas respostas termo regulatórias do pé, podem aumentar a sensação de desconforto durante a corrida (HINTZY et al. 2015). Hintzy et al. (2015) mostraram uma diminuição na percepção de conforto após 44 minutos ou 7,8 km de corrida, ou seja, o tênis que era confortável no início não mais era no final da corrida. O que a ciência mostra é que a sensação de conforto do tênis é o fator mais importante para a escolha do assessório. Ademais, este conforto deve perdurar por toda a corrida.

               Antes de se preocupar na escolha do tênis, o atleta deve se empenhar em preparar o corpo para a prática esportiva. Força muscular, mobilidade das articulações, planilhas de treinamento bem planejadas e ajustadas com o calendários de provas ou outros objetivos individuais, alimentação adequada e a interação de todos esses fatores são chave para o aumento da performance e prevenção de lesões. Dando a devida atenção a esses pontos o tênis só vai precisar ser confortável e agradável durante a prática esportiva. Assim a prevenção de lesões levará em conta outros fatores muito mais relevantes do que o tênis (WILKINSON et al. 2018).  

               Na FIBRA você conta com uma equipe profissional capacitada para orientar a prática esportiva, dando suporte quanto à preparação física, prevenção de lesões e acompanhamento nutricional – vamos trabalhar juntos para garantir sua melhor performance. Agende sua avaliação!

Por Ana Luiza Rodrigues

Referências:

NIGG, Benno M. et al. Running shoes and running injuries: mythbusting and a proposal for two new paradigms:‘preferred movement path’and ‘comfort filter’. British Journal of Sports Medicine, v. 49, n. 20, p. 1290-1294, 2015.

CLINGHAN, Richard et al. Do you get value for money when you buy an expensive pair of running shoes?. British Journal of Sports Medicine, v. 42, n. 3, p. 189-193, 2008.

MALISOUX, Laurent et al. Influence of the heel-to-toe drop of standard cushioned running shoes on injury risk in leisure-time runners: a randomized controlled trial with 6-month follow-up. The American journal of sports medicine, v. 44, n. 11, p. 2933-2940, 2016.

SILVA, Érica Q. et al. The Association Between Rearfoot Motion While Barefoot and Shod in Different Types of Running Shoes in Recreational Runners. Journal of Sports Science & Medicine, v. 19, n. 2, p. 383, 2020.

HINTZY, F.; CAVAGNA, J.; HORVAIS, N. Evolution of perceived footwear comfort over a prolonged running session. The Foot, v. 25, n. 4, p. 220-223, 2015.

WILKINSON, Mick; STONEHAM, Richard; SAXBY, Lee. Feet and footwear: Applying biological design and mismatch theory to running injuries. International Journal of Sports and Exercise Medicine, v. 4, n. 2, 2018.

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